Publicado em 24 de agosto de 2018

EMPRESARIAL - Inadimplência das empresas só reduz a partir do primeiro semestre de 2019

A capacidade de pagamento das empresas da maioria dos setores só melhorará ao final do primeiro semestre de 2019. Impulsionada pelo alto índice de calotes e pelo difícil acesso ao crédito, recuperação fica “travada” e vem de forma mais lenta que o esperado.

O movimento acontece em um ciclo vicioso. De um lado, o número de consumidores que não conseguem honrar seus compromissos só cresce e atinge novos picos históricos, puxado pelo alto nível de desemprego no País.

De outro, as empresas – que não conseguem receber de seus clientes pelas vendas a prazo que concederam – também ficam inadimplentes perante seus credores (instituições financeiras e até mesmo outras companhias).

Isso gera um adiamento de suas intenções de investimentos e a aquisição de políticas de redução de gastos o que, de grosso modo, pode implicar no corte de pessoal ou, simplesmente, na não contratação.

Os últimos dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) apontam que, em julho, o volume de consumidores com restrição no CPF avançou 4,31% em relação a igual período de 2017, atingindo 63,4 milhões de brasileiros.

Ao mesmo passo que, segundo o birô, o número de empresas inadimplentes em junho avançou 9,41%.

Especificamente entre os segmentos credores – companhias que deixaram de receber de outras companhias –, a maior alta foi no setor de serviços (+9,82%), seguido pela indústria (+7,19%) e pelo comércio (+3,23%). O único ramo que teve queda foi o agronegócio, cuja quantidade de atrasos reduziu 1,03% no período.

Segundo a economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti, mesmo com o andamento na economia que o direcionamento político deve trazer ao final deste ano, os setores de comércio, serviços e indústria ainda terão dificuldades.

“Essas empresas ficam apertadas tanto pelo lado do calote que recebem de seus clientes como pela falta de caixa suficiente para honrar seus compromissos aos credores”, afirma a economista-chefe.

Da outra ponta, a economista da Confederação Nacional do Comércio de bens, serviços e turismo (CNC), Marianne Hanson, pondera que os altos níveis de desemprego têm inibido o pagamento de dívidas por parte dos consumidores.

“As famílias priorizam pagamentos de valores altos e que colocam em risco os bens que possuem, como as parcelas de um carro, por exemplo. Mas a situação está tão difícil que mesmo serviços básicos, como água e luz, estão sofrendo as consequências da inadimplência”, comenta Hanson.

“Destrave”

Mesmo com as perspectivas de que um direcionamento eleitoral destrave a economia, a oferta de financiamentos por parte das próprias empresas e a demanda por crédito continuarão afetadas.

Para o professor de economia da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP/FGV) Clemens Nunes, diferente do que vimos nos últimos anos, onde as empresas com altos estoques “adotaram critérios menos restritos na concessão pela necessidade de fazer caixa”, os estoques normalizados e o cenário difícil, retraem recursos.

“Os bancos continuarão seletivos na hora das concessões, ao mesmo tempo em que as empresas com estoque adequado também adotam uma análise mais criteriosa”, diz.

Já segundo o economista do Banco MUFG Mauricio Nakahodo, o único setor que continua crescendo é o agronegócio, ao passo em que os demais “ainda levam algum tempo”.

“A indústria depende tanto da demanda local quanto do desempenho de outras economias, bem como o setor de serviços fica à mercê do mercado de trabalho. Outro ramo que deve recuperar de forma mais lenta é construção civil, já que faz parte do grupo que ainda espera por maior clareza no ambiente doméstico”, afirma.

“De qualquer forma, independente do setor, a ideia é de que poderemos ver alguma recuperação pelo menos até o final do primeiro semestre de 2019”, conclui Kawauti.


Fonte: DCI

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