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Desmotivação nas equipes pode indicar desafios na liderança e na cultura das empresas


03/07/2026
Brasil
G1

Em um mercado marcado por alta competitividade, dificuldade para reter talentos e crescente preocupação com produtividade, muitas empresas têm voltado a atenção para um fator que nem sempre aparece nos indicadores financeiros: o impacto da liderança sobre o engajamento das equipes.

Embora a baixa performance e a desmotivação dos colaboradores sejam frequentemente atribuídas à falta de comprometimento individual, especialistas defendem que esses comportamentos também podem refletir a cultura organizacional e a forma como as lideranças conduzem pessoas.

Segundo Kênia Cristina Gomes, mentora e consultora de negócios especializada em desenvolvimento de líderes, gestão de pessoas e comportamento humano, o ambiente emocional de uma equipe costuma ser um dos retratos mais fiéis da maneira como uma organização é conduzida.

 

"Em muitas empresas, basta observar o clima organizacional para identificar sinais importantes. Atendimento automático, colaboradores desmotivados, baixo engajamento, conflitos recorrentes, pouca colaboração entre as equipes e alta rotatividade dificilmente surgem de forma isolada. Em muitos casos, esses comportamentos revelam desafios relacionados à liderança e à cultura da organização", afirma.

Para a especialista, a liderança exerce influência que vai além da definição de metas, distribuição de tarefas e acompanhamento de indicadores. Ela também participa da construção do ambiente onde as pessoas trabalham diariamente.

"As pessoas não se desconectam apenas das atividades que realizam. Muitas vezes, elas se afastam emocionalmente de ambientes onde não encontram propósito, reconhecimento, desenvolvimento ou relações baseadas na confiança."

Na avaliação de Kênia Cristina, empresas que enfrentam dificuldades relacionadas ao clima organizacional frequentemente apresentam características semelhantes: excesso de centralização, comunicação predominantemente reativa, ausência de reconhecimento, baixa qualidade dos feedbacks e pouca clareza sobre responsabilidades.

Esses fatores, segundo ela, nem sempre aparecem em relatórios gerenciais, mas costumam ser percebidos no comportamento das equipes.

"Quando o ambiente não favorece relações saudáveis, os reflexos aparecem na produtividade, na criatividade, na colaboração entre os profissionais, na qualidade do atendimento e, consequentemente, nos resultados do negócio."

Outro aspecto observado pela especialista é que muitos empresários concentram investimentos em marketing, processos, tecnologia e estratégias comerciais, mas dedicam pouca atenção ao fortalecimento da cultura organizacional.

 

"Cultura não é apenas aquilo que está descrito em apresentações institucionais ou nos valores expostos na parede da empresa. Cultura é a experiência vivida pelas pessoas todos os dias."

Segundo Kênia Cristina, lideranças despreparadas para lidar com pessoas podem comprometer o desenvolvimento de talentos e aumentar a rotatividade de profissionais qualificados.

"Muitas pessoas deixam empresas não apenas em busca de melhores salários, mas porque desejam trabalhar em ambientes onde sejam respeitadas, ouvidas e tenham oportunidades reais de crescimento."

Ao mesmo tempo, a especialista faz uma ressalva importante: desenvolver uma liderança mais humana não significa reduzir o nível de exigência ou eliminar processos de cobrança.

"Existe uma diferença entre liderança humanizada e liderança permissiva."

Na avaliação de Kênia, líderes que evitam conversas difíceis, deixam de corrigir comportamentos inadequados ou flexibilizam excessivamente regras para evitar conflitos acabam produzindo efeitos igualmente prejudiciais para a organização.

Entre as consequências mais frequentes estão a redução da produtividade, perda de comprometimento, enfraquecimento da autoridade da liderança, dúvidas sobre responsabilidades, sobrecarga dos profissionais mais engajados e conflitos silenciosos que comprometem o ambiente interno.

"O desafio da liderança contemporânea está justamente em encontrar equilíbrio. Liderar exige firmeza para tomar decisões, estabelecer limites e cobrar resultados, mas também sensibilidade para desenvolver pessoas, ouvir diferentes perspectivas e construir relações de confiança."

 

Para a especialista, esse equilíbrio depende de competências que vão além do conhecimento técnico. Inteligência emocional, comunicação clara, capacidade de escuta, qualidade dos feedbacks, gestão de conflitos e desenvolvimento de pessoas passaram a ocupar espaço estratégico dentro das organizações.

Outro fator destacado por Kênia Cristina é a influência do comportamento da liderança sobre toda a equipe.

"Profissionais tendem a reproduzir o ambiente em que trabalham. Líderes que atuam sob constante tensão, reagem impulsivamente ou mantêm relações baseadas apenas na cobrança podem contribuir para a formação de equipes emocionalmente defensivas, menos colaborativas e mais resistentes à inovação."

Por outro lado, ambientes que combinam disciplina, clareza, reconhecimento e segurança psicológica costumam favorecer maior engajamento, criatividade, senso de pertencimento e comprometimento com resultados.

Segundo a especialista, empresas que conseguem sustentar crescimento consistente normalmente compreendem que desempenho não depende exclusivamente de processos ou indicadores, mas também da qualidade das relações construídas internamente.

"Formar líderes capazes de manter alta performance sem criar ambientes emocionalmente tóxicos talvez seja um dos maiores desafios da gestão contemporânea."

Ao final, Kênia Cristina propõe uma reflexão aos gestores.

"Antes de perguntar por que a equipe está desmotivada, vale refletir de que maneira a própria liderança pode estar influenciando esse cenário."

 

Para ela, organizações sólidas não são construídas apenas por metas, processos ou estratégias comerciais."No longo prazo, empresas sustentáveis são resultado do equilíbrio entre gestão, comportamento humano e cultura organizacional."

Kênia Cristina é mentora de negócios, consultora empresarial, palestrante, especialista em Gestão de Pessoas e analista de perfil comportamental DISC. Com mais de 30 anos de carreira no ambiente corporativo e empresarial, atua no desenvolvimento de líderes, equipes e negócios, auxiliando empresas a fortalecerem sua cultura, aperfeiçoarem a comunicação e criarem estratégias mais humanizadas de gestão, vendas e relacionamento com clientes. É coautora do livro "Líderes do Século 21", obra que reúne especialistas para discutir os desafios e as transformações da liderança contemporânea.


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