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“ONGs precisam planejar para ter crescimento sustentável”

Um dos principais desafios hoje para a captação de recursos no terceiro setor é fazer um planejamento. O alerta foi feito por João Paulo Vergueiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), durante o Festival ABCR, que ocorreu entre os dias 5 e 7 de maio, no Centro de Convenção Rebouças, em São Paulo, reunindo masterclasses, palestras e feira de expositores, com o objetivo de discutir os desafios e estratégias para a captação de recursos na sociedade civil.



Segundo Vergueiro, boa parte das ONGs trabalha com as despesas do dia a dia, com o básico para fechar as contas no fim do mês, principalmente quando elas são pequenas. “Mas é fundamental que elas parem e planejem, criem uma estratégia para sobreviver no médio e longo prazo”, afirma.



Após dar início ao planejamento de como obter os recursos necessários, Vergueiro aponta três elementos fundamentais para o sucesso de qualquer entidade: paciência, investimento e confiança na relação com os doadores. Paciência, porque a captação de recursos é um processo que leva tempo; investimento, porque você precisa levar a sua mensagem às pessoas certas para receber retorno, e isso demanda dinheiro; e confiança na relação com os doadores, porque a ONG precisa acreditar que defende uma causa importante o bastante para atrair outras pessoas, que podem demorar a chegar, mas com a estratégia correta chegarão uma hora.



O encontro abordou desde questões mais gerais, como a necessidade de se construir uma cultura de doação no país, até formas específicas de se fazer isso, como o diálogo direto com pessoas físicas e a captação com governo e empresas.



Ao todo, foram quase 500 participantes na edição de 2015, contando público e palestrantes. Para o diretor executivo da ABCR, “um festival como este é importante para a sociedade civil por mostrar esses caminhos, por promover a melhor maneira de elas alcançarem a sustentabilidade financeira delas.”



Troca de experiências



Participantes de várias regiões do Brasil marcaram presença no encontro. Um deles foi Daniel Antunes, do Grupo Luta Pela Vida, de Uberlândia, Minas Gerais.



O grupo construiu o Hospital do Câncer de Uberlândia e é responsável até hoje pela manutenção do local. Para isso, conta com o apoio financeiro de aproximadamente 45 mil pessoas físicas e 800 empresas. O método utilizado para atingir tanta gente? Na maioria das vezes, o telefone. “A nossa principal forma de contato é até hoje o telefone, com o serviço de telemarketing”, conta Antunes. Mas, como está cada vez mais complicado falar com as pessoas através do telefone fixo, a instituição já está em busca de novas formas de conquistar doadores para sua causa.



Outra pessoa que viajou para conhecer as diferentes maneiras de se captar recursos foi Jeanine Pacholski, de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Funcionária do Instituto Elisabetha Randon, criado por um grupo empresarial da região, Jeanine admite que não vivencia grandes obstáculos no dia a dia para conseguir empresas que aceitem financiar os projetos do instituto. Ainda assim, ela e a organização sem fins lucrativos que ela representa estão interessadas em conhecer as opções de captação disponíveis, não só para benefício direto da instituição, mas também para ajudar a disseminar esse conhecimento para outras ONGs gaúchas.



E nem só de integrantes diretos do terceiro setor o público do evento foi composto. A administradora Andrea Gama, de Salvador, na Bahia, é sócia da produtora Benditas, que trabalha no desenvolvimento de projetos culturais, sociais e esportivos, e decidiu participar do festival para entender a fundo a questão da captação e ver o que as organizações da sociedade civil têm a ensinar para empresas com preocupação social. “Acho que a troca entre o segundo e o terceiro setor é sempre muito importante”, diz.



A busca por pessoas



A preocupação em captar recursos financeiros é essencial para qualquer organização, mas é preciso buscar também outro tipo de recurso: o humano. “Às vezes, a gente fica pensando só em trazer patrocinador, trazer dinheiro, recurso material. Isso é fundamental, mas é muito importante envolver pessoas na história”, explica Felipe Mello, um dos fundadores da ONG Canto Cidadão e palestrante do Festival ABCR 2015.



De acordo com Mello, a maioria das entidades do terceiro setor nasce da vontade de algumas pessoas em fazer um trabalho social, mas que não têm fácil acesso a empresas que possam ajudar financeiramente. Assim, conquistar um grupo de pessoas que se interessem pela mesma causa e que aceitem trabalhar voluntariamente por ela ou ajudar com doações pode ser o primeiro grande passo. Foi assim com a própria Canto Cidadão.



O trabalho social que deu origem à instituição foi o Doutores Cidadãos, que começou com Mello e um amigo, Roberto Ravagnani. Após seus expedientes normais em empresas, eles se vestiam de palhaços e iam visitar voluntariamente idosos em hospitais e asilos públicos e filantrópicos. Com o tempo, o projeto foi conquistando outros voluntários e começou a crescer, até se tornar o que é hoje: uma ONG que já beneficiou cinco milhões de pessoas, através de diferentes ações de sensibilização para a cidadania, como palestras e programas de rádio e televisão, e atuação direta, com atividades artísticas e lúdicas em hospitais e escolas.



“O caminho é buscar pessoas. A partir de cada uma que se junta à sua causa, você tem a possibilidade de conhecer muitas outras e, assim, você vai criando conexões e crescendo”. Outra dica de Mello é fugir do discurso de “coitadinho” na hora de tentar mobilizar pessoas e empresas para a sua causa. Neste momento, é importante mostrar que há um projeto precioso sendo discutido, que promove a valorização da vida e trará benefícios para todos os envolvidos.


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