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Apenas 26% do crescimento do Brasil vêm de produtividade

São Paulo - Um estudo do Ipea divulgado ontem revelou que apenas 26% do crescimento econômico brasileiro é oriundo de ganhos de produtividade. Enquanto em países como a China, a Í;ndia e a Rússia essa proporção é de 93%, 82% e 40%, respectivamente.



A pesquisa mostrou também que entre 2000 e 2009, por exemplo, a taxa média anual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil alcançou 3,42%, sendo que apenas um terço dessa expansão veio do aumento da produtividade do trabalho.



Os outros dois terços foram resultado da alta da taxa de ocupação entre os brasileiros e, em menor medida, da taxa de participação - razão entre a população economicamente ativa (PEA) e a população em idade ativa (PIA).



O grande dilema colocado pelo estudo do Ipea, "Produtividade no Brasil - Desempenho e Determinantes", é que o modelo de crescimento alicerçado na incorporação de pessoas ao mercado de trabalho e crescimento populacional está se esgotando.



Desafio



Projeções demográficas, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), indicam que a PIA deverá crescer somente até 2030. "Por volta de 2030, o Brasil apresentará uma população eminentemente adulta. [...] E, por volta de 2050, a tendência é de ampliação rápida da população idosa", reitera a pesquisa.



O principal desafio do País para os próximos anos, segundo o estudo apresentado ontem, será encontrar alternativas para alavancar a economia por meio da produtividade do trabalho.



Para o professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UNB), Carlos Alberto Ramos, um dos grandes entraves a esse objetivo é o baixo patamar de investimento do País. "A proporção da taxa de investimento em relação ao PIB é de cerca de 16% no Brasil, enquanto na China, por exemplo, essa porcentagem é de 40%", diz o professor.



Segundo a pesquisa do Ipea, a taxa de investimento nacional passou de 17% do PIB, no início da década de 2000, para 18%, no ano de 2012.



Outro problema para Ramos é a forma de investimento, tanto do setor público, como do setor privado. "No caso do setor privado, não temos um mercado capitalista de longo prazo. Os empresários não estão investindo para obterem resultados daqui a 30 anos", diz ele. "Isso pode ser relacionado a alta burocracia do País - que parece não diminuir - pelas altas taxas de juros, além das incertezas da economia."



Apesar disso, o estudo do instituto mostra que, nos últimos anos, o governo obteve avanços no modelo de concessões. Atualmente, o setor privado participa de 50% do total de investimentos realizados em infraestrutura pelo País.



No entanto, os gastos empresariais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) se mantiveram em níveis baixos em relação ao PIB. A pesquisa mostra que o período entre 2005 e 2008 registrou a relação P&D empresarial/PIB mais positiva na última década, passando de 0,49% para 0,53%. Entretanto, o Brasil permanece bem abaixo do nível de investimento em tecnologia de outros países, segundo o Ipea.



Poupança



"Em termos de políticas públicas, poderia ser criada uma taxa de poupança da economia, além de medidas que reduzam o consumo", diz Ramos. "O Brasil poupa muito pouco. Nosso déficit em conta corrente corresponde a 3,5% do nosso PIB. E o problema disso é que não utilizamos o capital que entra no País para investir em infraestrutura, por exemplo. E sim para promover maior consumo", completa.



Para o professor, ficar dependente da entrada de recursos do exterior também não é uma boa saída para o Brasil, devido à vulnerabilidade a crises internacionais, por exemplo. Além disso, o especialista lembra sobre a recuperação econômica dos Estados Unidos, o que deve atrair mais capital para aquela região.



"Isso é um problema, pois o setor público também tem dificuldade para poupar. Além de ter que pagar os juros da dívida, o Estado está demandando poupança externa. A formação de capital do setor público não chega a 2% do PIB", diz.



Segundo o estudo do Ipea, os investimentos em infraestrutura, tanto públicos como privados, passaram de menos de R$ 40 bilhões, no início da década de 2000, para cerca R$ 120 bilhões, em 2013, alcançando 2,45% de toda a riqueza produzida no País.



Os investimentos públicos em transportes, por exemplo - que correspondem à maior parte dos aportes totais em infraestrutura - passaram de R$ 8 bilhões para R$ 26 bilhões por ano, entre 2003 e 2010.



Apesar desse crescimento, esse valor representa apenas 0,6% do PIB e tem se mantido estável desde 2010. Além disso, esse montante está longe de ser o suficiente para eliminar os gargalos da infraestrutura brasileira, especialmente no setor de transportes.



Soluções



O estudo do Ipea aponta algumas soluções para os problemas estruturais da produtividade brasileira. Dentre elas, sugere que a tecnologia talvez seja o fator mais relevante para os ganhos de produtividade. Tanto as tecnologias de processo, como as de inovações de produto. "Outro fator que, no longo prazo, é crucial para a ampliação da produtividade é a educação e a qualificação da mão de obra", diz o Ipea.



Sobre essa questão, o professor da UNB comenta que o aumento da escolaridade da população, ocorrido nos últimos anos no País, ainda não se traduziu em elevação da produtividade. Para ele, isso acontece por conta da ausência de qualidade no ensino. "A escolarização está avançando em termos de quantidade, mas não de qualidade", considera.



Para o Ipea, a ausência de mão de obra qualificada para setores que exigem mais estudos, como de engenharia, é outro problema para a maior produtividade brasileira.



Texto confeccionado por: Paula Salati


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