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Desigualdade entre ricos e pobres se agrava com a crise

Brasília – O governo da presidente Dilma Rousseff perdeu a batalha no combate à desigualdade. Desde que assumiu o poder, ela não conseguiu reduzir o fosso que separa os mais ricos dos mais pobres e ainda ajudou a piorar a situação econômica, com as mais baixas taxas de crescimento econômico desde a redemocratização do país.



Marcelo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um estudioso do assunto, revela que, entre 2006 e 2012, a diferença social manteve-se estável. “A concentração da renda não mudou. A fatia dos 1% mais ricos da população continuou detentora de um quarto da renda produzida no país, e 5% mantiveram metade da renda total nesse período”, destaca.



Apesar de não dispor de dados mais recentes, Medeiros reconhece que, com a desaceleração da economia, o aumento do desemprego e a inflação em torno de 10% ao ano, a desigualdade deverá aumentar “se não houver queda na renda dos mais ricos”. “Para se ter uma ideia precisa, são necessários uma análise mais densa e um período mais longo de análise”, ressalva.



O economista Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília, não tem dúvidas de que a desigualdade vem crescendo, principalmente devido ao aumento do desemprego e da inflação. Na avaliação dele, boa parte do ganho de renda obtido pelos brasileiros em períodos anteriores está se perdendo devido às trapalhadas do governo na área fiscal, que fizeram a economia mergulhar na recessão. “As pessoas estão ficando mais pobres. Isso é fato. A renda per capita deve cair 7,45% entre 2014 e 2017”, calcula.



A falta de um plano estratégico para fazer o país voltar a crescer deixam qualquer empresário sem vontade de investir no país no meio da recessão e da crise política. Não à toa, o descontrole nas contas públicas já fez o país perder o selo de bom pagador da agência de classificação de risco Standard & Poor’s em setembro e, pelas estimativas dos especialistas, fará com que o país também perca o grau de investimento da Moody’s ainda neste ano.



Para coroar esse quadro preocupante, as maquiagens contábeis feitas às vésperas das eleições de 2014, em desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), abusando das “pedaladas fiscais” (atrasos nos repasses aos bancos públicos), foram cruciais para que o Tribunal de Contas da União (TCU), rejeitasse as contas de Dilma de 2014, na última quarta-feira.



Durante a eleição do ano passado, o governo suspendeu a divulgação de vários estudos do Ipea que apontavam para o aumento da pobreza — um deles feito por Medeiros. O economista chegou a pedir exoneração do cargo de coordenador que ocupava na época, mas continuou na instituição como pesquisador e deve ser chamado a depor no processo de impugnação da chapa Dilma/Temer que tramita no Tribunal Superior Eleitoral.



Em parceria com o pesquisador Pedro H. Souza, Medeiros cruzou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com informações da Receita Federal sobre o Imposto de Renda. A conclusão foi a de que a desigualdade se manteve estável entre 2006 e 2012. “Vários testes apontam um resultado que parece ser importante, mas ainda não sabemos explicar adequadamente: o comportamento da desigualdade observado nas Pnads muda de direção quando os dados do Imposto de Renda são utilizados. Isso sugere a possibilidade de que os determinantes do nível de renda para a população mais baixa sejam diferentes dos determinantes de rendimento dos mais ricos”, diz o estudo “A estabilidade da desigualdade no Brasil entre 2006 e 2012: resultados adicionais”, concluído recentemente e ainda não publicado.



“Em outras palavras, temos alguma evidência de que aquilo que explica a pobreza e o centro da distribuição não explica bem a riqueza. Por óbvio que possa parecer, isso indica que precisamos reavaliar algumas das conclusões de nossas pesquisas sobre a desigualdade. No entanto, este é apenas um indício. Sua interpretação deve ser feita com cautela. Ainda precisamos de mais evidências para ter segurança”, destaca.



Retrocesso dolorido



A economista Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e diretora da consultoria Galanto/MBB, em Washington, avalia que o retrocesso que o país vem sofrendo será dolorido para a população. O país levará muitos anos para voltar a ter o grau de investimento. “O Uruguai levou 10 anos, e a culpa nem foi da economia interna, e sim da Argentina, quando deu o calote na dívida. No caso do Brasil, o processo também será demorado”, alerta.



Ela destaca ainda que a necessidade de fazer o ajuste fiscal permanece, mas o governo não tem a credibilidade necessária execurar a tarefa. “A situação está tão desarranjada dos pontos de vista político e econômico que não tem como sustentar o investment grade do país. A população corre o risco de reviver coisas dolorosas até que tudo seja arrumado. Isso leva tempo, e é preciso ter capacidade para evitar que o país caia num cenário de descontrole inflacionário, que é o jeito mais fácil de corroer os problemas fiscais. Tenho muito medo disso”, alerta.



O economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, é taxativo ao apontar o maior perdedor dessa crise: a classe média. “Não há dúvida. Quem ascendeu socialmente é quem perde mais com essa inflação alta. Para essas pessoas, mesmo se o consumo de energia, uma das principais despesas que elas têm em casa, não aumentou, a conta de luz dobrou. Logo, elas não estão mais conseguindo adquirir as mesmas coisas que compravam antes”, destaca. Monica de Bolle também acredita que “as pessoas que conseguiram migrar para a classe C serão as que mais vão sofrer com a crise. “O retrocesso da redução de desigualdade será inevitável”, lamenta.



Sem alternativa, a população abre mão do nível de consumo que tinha alcançado nos anos de bonança. É o caso da empregada doméstica Adriana Pinto, 32 anos. “Está cada vez mais difícil fazer compras no supermercado. Está tudo muito caro. Há um ano, comprava dois sacos de arroz por mês. Agora, levo um só. Carne, só de vez em quando. E, leite, nem compro mais”, diz. Ela conta que reduziu as idas ao cinema com a família e que não leva mais o filho para lanchar na rua. “A passagem do ônibus subiu e preciso economizar para continuar indo trabalhar”, conta. (Rosana Hessel, com Mariana Areias)





Texto confeccionado por:  Rosana Hessel


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