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Queda do real desorganiza a gestão das empresas e o cotidiano das pessoas

A desvalorização do real em relação à moeda americana atingiu 71,57% nos 12 meses encerrados na sexta-feira (4/9). Uma perda maior para o mesmo período só ocorreu em março de 1999, de acordo com cálculos da consultoria Tendências. No ano em que o país abandonou a âncora cambial, a moeda brasileira desvalorizou 91,6%.



A mudança de patamar do câmbio está provocando uma desorganização momentânea da economia e impactando diretamente o cotidiano das pessoas e das empresas. Para o comércio dependente da importação, a conta está cada vez mais cara.



Dono de uma importadora de brinquedos e material escolar, Ronaldo Funtowicz, de 57 anos, sentiu o peso do câmbio em seu negócio. "À medida que aumenta o dólar, aumenta o custo. Para manter a demanda, somos obrigados, a sacrificar a margem, para passar por esse período", afirma. No setor, os preços subiram em média de 20% a 25%, e os estoques estão mais altos do que em 2014. "Em outubro, na ida à China, vamos trazer uns 30% a menos de brinquedos do que no ano passado."



BOM PARA EXPORTAÇÃO



Para os exportadores, no entanto, os analistas de mercado esperam reação positiva. Acreditam que a desvalorização do real seja um caminho para o Brasil sair da atual recessão, por meio do impulso nas exportações e pela consequente melhora do setor externo. "Quanto mais depreciado o câmbio, mais competitivos vão estar os produtos tanto para a exportação como no mercado interno", afirma Bruno Lavieri, economista da Consultoria Tendências.



Um sinal de melhora das exportações começa a se tornar evidente na rentabilidade das vendas externas na indústria de transformação, um dos setores mais afetados. Os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostram um avanço da rentabilidade de 12,6% em julho na comparação com o mesmo mês do ano passado. Na agricultura e pecuária, o aumento foi mais modesto, de 0,9%, num sinal de que a alta do dólar está compensando a forte queda do preço das commodities.



O câmbio, porém, não representa um fator de competitividade, de acordo com Daiane Santos, economista da Funcex. "O efeito do câmbio na rentabilidade é instantâneo, mas na quantidade exportada demora mais para aparecer”, afirma. O ideal, segundo ela, é reduzir o custo do produto para torná-lo mais competitivo, “mas na atual conjuntura, a desvalorização do real está proporcionando um ganho de competitividade."



CONSUMIDOR DESMOTIVADO



A desvalorização do real também desestimulou quem pretendia encher as malas com produtos de outlets numa viagem ao exterior. "Quando o dólar estava R$ 3,35, as pessoas não se assustavam. Quando passou de R$ 3,60, começaram a fazer contas", afirma Leonel Rossi Junior, vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Agentes de Viagens.



Segundo a associação, a demanda para viagens no exterior caiu 10% neste ano. "A procura só não foi menor porque houve uma queda significativa no preço das passagens", afirma Rossi Junior. Ele espera que, no segundo semestre, a demanda pelos destinos domésticos aumente de 5% a 7% em relação a 2014.



Com a disparada da moeda americana, o dólar turismo em espécie está na casa dos R$ 4. Já no cartão pré-pago, com imposto maior, já ultrapassou R$ 4,20 em algumas casas de câmbio. Com isso, muitos têm optado por mudar o destino das férias. Com o casamento marcado para dezembro, Cristina Mendonça e Filipe Cunha trocaram a lua de mel na Ilha Bonaire, no Caribe, por Maraú, no sul da Bahia. "Não ficou tão mais barato, mas evitamos surpresas. É mais fácil descansar sabendo o quanto se está gastando", diz ela.


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