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Empresas recorrem à gestão interina para enfrentar crise

O empresário Christian Bennecke, seu pai e avô já driblaram diferentes crises econômicas para manter as portas abertas da Corneta, fabricante de ferramentas e autopeças criada pelo avô de Bennecke. Mas, desta vez, ele pediu ajuda. Para salvar a empresa, o empresário bateu às portas da consultoria de gestão Naxentia em dezembro passado e contratou executivos interinos para tocar o negócio e arrumar a casa.



A Corneta é uma empresa octogenária, que começou seus negócios no Brasil com uma fábrica na Avenida Turiaçu, em São Paulo, ao lado do estádio Palestra Itália, do Palmeiras.





Alguns funcionários subiam no telhado da fábrica para fazer pirraça com os jogadores do time, prática que deu origem à expressão “corneteiro”, usada até hoje no futebol. Ao longo dos anos, a fábrica mudou para Osasco e o negócio de ferramentas foi perdendo espaço para a produção de autopeças, especialmente para o segmento de motos, que hoje representa 90% da receita da companhia.



Com a queda da venda de motos nos últimos anos, a Corneta sofreu junto. Sua receita vinha encolhendo e, sem conseguir cortar os custos na mesma proporção, a empresa ficou no vermelho. “Se continuássemos nesse ritmo de perdas, iríamos caminhar para a recuperação judicial”, admitiu Bennecke.



Os acionistas chegaram a abrir um processo seletivo para recrutar um CEO para a companhia, mas acabaram optando por contratar uma consultoria para fazer a gestão interina da empresa. “Os head hunters (recrutadores) nos apresentaram bons candidatos. Mas entendemos que precisamos de uma solução multidisciplinar, com vários executivos em frentes diferentes. Não acredito que um CEO super-herói vá salvar a empresa”, disse o empresário.



Desde dezembro, a Corneta tem três executivos da consultoria Naxentia no comando – um CEO, um diretor financeiro e um executivo para a área de controles internos (controller). A missão deles é retomar a rentabilidade da empresa.



Assim como a Corneta, diversas empresas tiveram de buscar ajuda para se ajustar à crise. De acordo com oito consultorias que oferecem o serviço, consultadas pelo Estado, como Galeazzi & Associados, McKinsey, Corporate Consulting, Strategos e Alvarez&Marsal, a demanda pela gestão interina cresceu significativamente este ano.



Segundo as consultorias, os principais clientes são empresas familiares com prejuízos e problemas de liquidez. E há demanda generalizada pelo serviço, com destaque para o setor industrial, especialmente as empresas de autopeças, máquinas e equipamentos e construção civil.



Ajuste de contas.Desde que assumiu o comando da Corneta, a equipe da Naxentia teve de demitir e elevar preços, além de renegociar com fornecedores. “O foco é resultado. O contexto exige que a empresa se adapte e enxugue a operação”, disse o consultor da Naxentia e atual presidente da Corneta, Oswaldo Cochrane.



Nos tempos áureos de vendas de motos aquecidas, a Corneta faturava R$ 100 milhões e tinha quase 600 funcionários. Hoje a empresa tem 400 pessoas e deve faturar R$ 60 milhões este ano. De margem negativa em 5%, a meta é ficar no zero a zero em 2015 e voltar a lucrar só em 2016. Então, os executivos se despedirão e vão arrumar outra casa.







Pedido de ‘socorro’ deve ser antecipado





MARINA GAZZONI, FERNANDO SCHELLER - O ESTADO DE S. PAULO





Embora não seja praxe no Brasil, empresas já buscam auxílio antes de intervenção judicial ser única saída, ampliando taxa de êxito da gestão interina





A crise de liquidez é o principal motivo que leva os empresários a entregar seu negócio a um gestor interino. Com a alta do dólar, diversas empresas brasileiras sentiram um choque de custos. O aumento nas taxas de juros também encareceu o crédito e apertou ainda mais as margens. No acumulado de 2015, 627 empresas solicitaram recuperação judicial entre janeiro e julho, segundo a Serasa Experian, número 31,7% maior do que o total de solicitações feitas no mesmo período do ano passado. Nesses casos, a própria Justiça escolhe um administrador.



O que aos poucos começa a acontecer, no entanto, é um movimento de companhias que, ao perceberem que seu resultado está piorando, buscam ajuda antes que a recuperação judicial seja inevitável. São empresas que precisam enxugar sua estrutura para fazer a conta fechar. Nessa hora, é preciso tomar decisões difíceis, como demitir, fechar fábricas e desativar áreas de negócios. São medidas que nem sempre os donos e executivos têm sangue frio e coragem para por em prática.





É aí que entram os gestores interinos. Eles são profissionais ou consultorias que estão dispostos a assumir negócios que com dificuldades para captar bons executivos no mercado. “O processo de reestruturação requer mão de obra muito qualificada e com experiência, mas as empresas em crise nem sempre conseguem atrair esses profissionais. Contratar um gestor temporário para um projeto específico é mais viável”, disse Susana Falchi, diretora da empresa de recrutamento HSD, que estima uma alta de 30% na procura por executivos com perfil de reestruturação.



Reestruturar um negócio pode significar ir contra tudo o que o fundador da empresa acredita, diz Riccardo Gambarotto, sócio da consultoria RGF & Associados. “O empreendedor não sabe fazer isso. Ele é bom para expandir a empresa, comprar, pensar em novos mercados, mas reluta em tomar medidas de redução de tamanho.”



Em um de seus projetos, Gambarotto descobriu que uma rede de escolas dava prejuízo no sistema de ensino tradicional e lucrava no ensino à distância. “Recomendamos a cisão dos negócios e a venda das escolas”, disse. Segundo ele, o dono ficou só com a empresa de ensino à distância, que é lucrativa, mas ficou abalado. “O xodó dele eram as escolas.”



Hora certa. A agilidade dos empresários em aceitar as mudanças necessárias é fundamental para tonar viável a recuperação da empresa, especialmente no atual cenário, afirma Gonzalo Grilo, sócio da consultoria Alvarez & Marsal. Isso porque, no mercado de empresas médias, a resistência a erros de gestão é muito baixa. “Essas empresas se financiam no mercado interno, e precisam pagar uma Selic (taxa básica de juros) de 14,25% ao ano”, diz o especialista. “Que indústria hoje tem margens de 15% ao ano no Brasil?”



Uma das empresas que resolveu buscar ajuda antes de suas contas se complicarem de maneira irreversível foi a Brasvending, companhia especializada em máquinas de café para empresas, que fatura cerca de R$ 100 milhões por ano e tem 700 funcionários. “A empresa é líder em seu segmento. Como vende um produto a um preço muito competitivo, não deve estar na primeira linha de corte de custos dos clientes”, diz Grilo. “O que estamos fazendo é uma mistura de gestão de crise com melhoria de performance.”



A Brasvending, fundada em 1996, tem hoje como sócio principal Augusto Conde. A companhia recebeu investimento de um fundo de investimento, o DGF, que deixou o negócio em 2014. Hoje, a Alvarez & Marsal faz a gestão interina do negócio com um grupo de três executivos – um presidente, um diretor comercial e outro de finanças.



Além da Brasvending, a consultoria também alocou executivos para os processos de reestruturação das construtoras OAS e Galvão Engenharia. Ambas pediram recuperação judicial após serem investigadas na Operação Lava Jato. Um executivo da Alvarez & Marsal assumiu, por curto período de tempo, a presidência da OGX.



Texto confeccionado por: Marina Gazzoni  


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